Grupo inclui carreiras de elite, que já ganham bem
O governo vai editar nos próximos dias uma MP concedendo aumento
a 350 mil servidores públicos, entre eles os que pertencem à elite
do funcionalismo, como auditores da Receita Federal e do Banco
Central. Encerrando o processo de reajustes, em 2011, a conta
deixada pelo governo Lula para o próximo presidente chegará a R$ 32
bilhões.
O governo vai editar nos próximos dias duas novas medidas
provisórias que darão aumento salarial a 350 mil funcionários
públicos, de 54 categorias. O reajuste deverá incidir na folha
salarial de agosto, a ser paga no início de setembro. Esse grupo
ficou fora dos aumentos do funcionalismo civil e militar incluídos
na MP 431, já aprovada na Câmara dos Deputados
O Ministério do Planejamento não enviou os
textos semana passada, como chegou a anunciar, mas os sindicalistas
aguardam a edição das MPs ainda esta semana. Com elas, o governo
encerra o ciclo de ajustes no salário de 1,7 milhão de funcionários,
que começou em março e prevê aumentos paulatinos até 2011. Este mês,
a Câmara aprovou o texto da MP 431, que alcança 800.512 servidores
civis, sendo 350.189 ativos, 271.114 aposentados e 179.209
pensionistas. A MP, cujos destaques serão votados em agosto, ainda
beneficia 611.935 militares. O texto ainda passa pelo Senado.
Quando esse processo de reajustes se encerrar, em 2011, a conta
para o futuro presidente da República será de cerca de R$32 bilhões.
Para conceder esses aumentos, o governo modificou a lei orçamentária
aprovada pelo Congresso e elevou de R$3,5 bilhões para R$11,1
bilhões a dotação voltada para reajustes salariais. O impacto anual
desses aumentos, que seria de R$7,4 bilhões, passou a R$19,7
bilhões, sem contar as parcelas de ajustes previstas.
Segundo o secretário-geral da Confederação Nacional dos
Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), José Milton
Costa, falta apenas fechar detalhes dos ajustes dos funcionários da
Funai e do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Para
ele, o governo não teve vontade política para acelerar as
negociações, que ocorrem desde o início do ano:
- O governo protelou bastante. Detalhes foram acumulando e
demoraram a ser resolvidos.
A preocupação dos sindicalistas é com a possibilidade de os
textos não serem editados até o início de agosto. Como a folha de
pagamento dos funcionários públicos é fechada no dia 20 de cada mês,
eles temem que não haja tempo suficiente para incluí-las mesmo em
agosto.
Uma das medidas provisórias é voltada para as carreiras típicas
de Estado, como auditores da Receita Federal, Banco Central,
Advocacia Geral da União e fiscais do Ministério do Trabalho, além
dos gestores públicos. A outra abrangerá as demais carreiras, como
70 mil servidores e peritos médicos do INSS. Para o ministro da
Previdência, José Pimentel, os ajustes são fundamentais para
melhorar o atendimento nos postos. Também serão beneficiados
servidores das agências reguladores, da Fiocruz, do Inmetro,
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e do Ministério da
Ciência e Tecnologia.
Segundo o Ministério do Planejamento, os ajustes fazem parte da
política de fortalecimento do funcionalismo, reduzindo distorções em
relação aos salários da iniciativa privada e entre categorias de
servidores. Com esses aumentos, o governo alega que poderá atrair e
reter profissionais de alto nível.
Despesa, 'herança
maldita'
Especialistas em contas públicas criticam a decisão do governo de
conceder reajustes a servidores civis e militares com impactos até
2012. O economista José Roberto Afonso diz que a União deveria
evitar despesas que tenham impacto nos orçamentos de futuros
governantes:
- É preciso ter cuidado com decisões que vão se refletir no
mandato seguinte. Isso é um atalho para se criar a herança maldita.
Para Raul Velloso, prever despesas futuras apenas com a
expectativa de que se mantenham os recordes sucessivos na
arrecadação contraria o espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), que inibe a criação de despesa continuada sem uma receita
garantida correspondente:
- Este ano, a arrecadação está realmente bombando. E, quando a
arrecadação bomba, o governo se vê tentado a fazer concessões onde
ele é mais pressionado. Isso só está funcionando porque há excesso
de arrecadação. Esse tipo de decisão que afeta os próximos governos
vai contra a LRF.